Design, um solucionador de problemas com sérios problemas com o empreendedor.

Postado em

por Marcus Cordeiro
Designer sênior na OverBrand

design-marcos-cordeiro

Quando comecei a trabalhar com design em meados dos anos 80 o termo era pouco difundido no Brasil. No mercado, de maneira geral imaginava-se que o designer era um profissional restrito a elite, que desenhava carros, aviões, objetos raros e o mais próximo que se chegaria de seus projetos seria numa exposição. Com essa visão, era impensável contratar um designer pois o “custo” (e não investimento) estaria acima dos padrões de uma pequena empresa, maioria em nosso país. Sendo assim, o empreendedor proprietário, exercitava sua imaginação criando o nome, logotipo, rótulo, embalagem, ambientes, fachada, tudo que identificaria o seu negócio, não importando a opinião do consumidor/usuário, afinal sua percepção sobre a necessidade de um designer, era tão superficial quanto o resultado da identidade criada para a empresa.

Essa desinformação tornou-se mais evidente algum tempo depois, quando o sucessor de José Sarney, o Presidente Fernando Collor abriu o Brasil para os produtos importados e o impacto no PIB foi rapidamente notado, contribuindo com uma inflação galopante na época. Não era somente a qualidade do produto interno que deixava a desejar, mas a apresentação, as embalagens, os rótulos, o design. Dois anos mais tarde veio o impeachment de Collor e assumia Itamar Franco que lançou um pacote de medidas econômicas que estabilizaram a economia, mas não foi suficiente para que o produto produzido no Brasil competisse em igualdade mesmo com países vizinhos. Então pelo Decreto de 09 de novembro de 1995 no Governo de FHC, foi criado o PBD Programa Brasileiro do Design que consistia em ter núcleos estratégicos em alguns Estados da Federação para orientar as empresas a se tornarem mais competitivas através do binômio design e inovação.

Essa palavra estrangeira de pronúncia esnobe é muitas vezes desconfortável aos próprios designers, como mencionado por André Villas-Boas em o que é e o que nunca foi design gráfico editora 2AB, desde sempre causou pouca compreensão aos brasileiros e essa superficialidade de entendimento desmerece a sua importância, gera distância e não desperta a necessária curiosidade em como funciona o processo. A associação mais comum era de que um designer é um artista como aqueles da idade média, de família nobre que só a corte teria dinheiro suficiente para contratar. Leonardo da Vinci seria uma boa referência para dar vida a esse personagem e muitos o descrevem como um dos percussores do design moderno por ser dotado de variadas habilidades.

Da Vinci deixou muitos desenhos da anatomia humana, de projetos detalhados para armas de guerra, avançados para época e invenções aerodinâmicas que antecedem os aviões e o helicóptero. Registros mais do que suficientes para saber que ele tinha todas as capacidades e conhecimentos de um designer, mesmo quinhentos anos depois de sua existência. E nesse sentido está certo, o conhecimento multidisciplinar aliado a capacidade de resolver problemas, mente aberta para inventar soluções, frente às necessidades humanas, com planejamento e detalhamento para realização, são características de um designer. Mas a associação do artista famoso que pintou a Monalisa ficou mais latente no imaginário empresarial, e é aí onde mora o engano e carece de explicação.

Essa imagem do designer rodeada de glamour e status das estrelas de cinema, quando em eventos de lançamentos de produtos conceituais, ou em premiações de concursos internacionais, é pra poucos. Os designers que constroem o mundo real, são pessoas com elevada auto crítica, dotados de perfeccionismo nato, emocionalmente comprometidos com uma missão, que se resume em melhorar a vida das pessoas, das empresas onde essas pessoas trabalham, no mundo onde essas pessoas vivem. Está presente nas letras do texto que lê, ao seu redor em cada objeto que compõe o ambiente, sobre sua pele no tecido que veste, no óculos, no relógio, etc., tudo pensado para ser útil, acessível e ergonomicamente ajustado a você, este é o resultado do pensamento do designer. É pouco?! Então imagine o mundo sem nada disso, sem o rótulo para diferenciar as bebidas e os alimentos, sem as roupas, sem as capas dos livros, sem os aplicativos, sem os sinais de trânsito. Seria caótico, cinzento e monótono né!? Fazer design é um estilo de vida custoso. Explico! …

Todo equipamento é mais caro para um designer, o computador precisa ser robusto e de configuração especial para rodar softwares específicos de processamento complexo que geram arquivos pesados. Além desses equipamentos ainda é necessário gadgets igualmente especiais, são drives externos com bastante espaço de armazenamento, mesa digitalizadora que substitui o mouse por uma caneta mais precisa, câmera fotográfica de boa qualidade, tablet e smartphone que otimizam o andamento de projetos online, revistas e livros para se manter atualizados e um ambiente adequado e motivador que inspirem a criatividade.

No Brasil como em muitas partes do mundo o Design é uma atividade não regulamentada. Por ser uma área de atuação plural e de muitos saberes as fronteiras com outras atividades são rarefeitas pois faz uso da Sociologia, Psicologia, Antropologia, Engenharia, Comunicação, Marketing, Artes e principalmente a Arquitetura. São atividades convergentes, porém, ao mesmo tempo que é positivo, por outro lado, é onde se encontra maior resistência para uma regulamentação. Definir limites nessa atividade que busca compreender as complexas necessidades humanas, paradoxalmente tornou-se difícil sem que outras áreas reclamem sua fatia de mercado.

Os consumidores estão exigindo cada vez mais diferenciais e o design é sem dúvida a atividade profissional que mais apresenta soluções quando o assunto é inovação. Em pouco tempo notou-se a rápida cobrança por qualidade e um dos responsáveis por isso foram os produtos tecnológicos, em especial os smartphones, que chegaram num outro nível de interação entre um eletrônico e uma pessoa por mais simples que seja. Num único aparelho pode-se ver TV, ouvir música, fazer transações financeiras, pesquisas na Internet, transmissões online, videoconferências, filmagens, gravar áudio, localização por GPS, efetuar compras, e obviamente, fazer e receber ligações. Tudo isso olhando para uma tela cada vez mais hipnotizante. Nesse ponto, temos que concordar com a ideia do designer artista, alguns desses aparelhos são verdadeiras obra de arte, tanto pela qualidade de construção quanto pelo visual dos aplicativos e seus sistemas operacionais com launcher personalizados. O que leva fãs de marcas líderes a fazerem filas intermináveis antes dos lançamentos.

A chegada dos smartphones mudou a experiência do usuário e a forma como todas as coisas são vistas, influenciando em melhorias na qualidade dos produtos. Daqui pra frente e cada vez mais o design será necessário para satisfazer essa cultura de massa que vem se popularizando em todas as camadas sociais. Hoje os consumidores conseguem diferenciar uma empresa, que tem design presente nos elementos que se relacionam com o mercado na marca e no visual do logotipo, na forma, nos materiais, nas cores e na embalagem dos produtos, nos pontos de venda, nos impressos, nas redes e em todos os materiais promocionais a qualidade da comunicação.

Os designers de hoje são muitos e poucos. São muitos que defendem que por não ter o respaldo de uma regulamentação, resulta na falta de reconhecimento sobre o ganho que o design promove no desempenho das empresas, tendo como consequência uma recompensa incompatível. As oportunidades limitadas e em ambientes nada inspiradores, onde impera a cultura de que o cliente tem razão pois é ele quem está contratando (sem saber que o consumidor é o alvo e não quem está pagando), torna impossível entregar um pacote de soluções inovadoras. E poucos por que além disso, é preciso assumir a dupla missão de educar esse empresariado carente de informação, convidando-o a participar das etapas do processo, desmistificando a ideia de que fazer design é algo superficial e puramente artístico, quase sempre confundido com publicidade ou Marketing. Design não é apenas arte, nem apenas publicidade, nem apenas arquitetura e informática. É um composto, o Design prevalece como uma ciência autônoma que se faz valer de outros aspectos em comum com todas as disciplinas já citadas a exemplo da pesquisa, das fundamentações do marketing e da abrangência da comunicação para satisfazer necessidades humanas ainda desconhecidas.

Segundo o Projeto de lei n° 2.621 de 2003 (versão atualizada do Projeto de Lei 3.515/1989) para a regulamentação da profissão de desenhista industrial, termo brasileiro que faz referência ao designer e que tramita até hoje, afirma que: “Art.1º – Desenhista industrial é todo aquele que desempenha atividade especializada de caráter técnico-científico, criativo e artístico, com vistas à concepção e desenvolvimento de projetos de objetos e mensagens visuais que equacionam sistematicamente dados ergonômicos, tecnológicos, econômicos, sociais, culturais e estéticos que atendam concretamente às necessidades humanas.”

Outro agravante de entendimento sobre o termo “design” além da pluralidade, é a ambiguidade que carrega desdobramentos de sentidos por vezes opostos. Design é uma palavra inglesa que compreende o ato de criar, conceber, planejar abrangendo também o desenhar e tem origem no latim que significa designar, indicar, representar, ordenar… O design está presente nos três momentos do processo de um produto, no planejar, no executar e no designar. Em minha livre interpretação e oportuna adequação, significa também: Orientar, explicar, educar.

Orientar didaticamente é o caminho mais eficiente para se convencer alguém sobre uma disciplina, e mais ainda quando são muitas disciplinas em uma. Ninguém compra o que não sabe pra que serve, como é o processo de desenvolvimento, a origem das matérias primas utilizadas e qual o custo benefício. A renomada designer e educadora, Ellen Lupton diz aos seus alunos que os designers deveriam pensar mais e desenhar menos. Seguindo esse conselho, acredito que os designers devem educar mais sobre as soluções dos problemas mesmo que esses problemas sejam o próprio design e questionar menos.

fonte:
https://www.linkedin.com/pulse/design-um-solucionador-de-problemas-com-s%C3%A9rios-o-marcus-cordeiro?trk=hb_ntf_MEGAPHONE_ARTICLE_POST

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